"A escola é a instituição que faz a transição entre a família e o mundo".
Hannah Arendt
A miséria da educação
Jornal A Cidade, 01/01/2006, Ano 100, Número 302
Ana Mello
coordenadora de creches da USP Ribeirão Preto
"Odeio miséria! É por isso que luto contra ela!"
Mario Quintana
Não foi à toa que a ONU estabeleceu dois grupos de pobreza: pobres e extremamente pobres. Pobreza extrema significa que, se não houver investimento público, as gerações serão sempre miseráveis. A ONU quer acabar com a miséria absoluta. A estratégia principal? Investir na qualidade da educação.
É oito vezes mais provável que meninos e meninas extremamente pobres deixem a escola antes do tempo, seja para trabalhar, seja por não conseguir entender o que é ensinado. Dificuldade na escola toda criança tem. Mas o que diferencia a criança pobre da criança da classe média? Há um aspecto relevante: a escolaridade dos pais da classe média é maior e, em casa, a família ajuda a criança. Em contrapartida, como um pai analfabeto ajudará seu filho com equações? Outro dia, um jardineiro se aproximou de mim e perguntou: Dona Ana, meu filho tá ruim na matemática. A senhora, que entende de escola, pode me explicar o que o X e o Y estavam fazendo no meio dos números?
Por este exemplo, vê-se que é preciso políticas educacionais diferentes para públicos diferentes. E temos tratado todos como iguais. Mas a igualdade não é importante? Não, a eqüidade é que é. A igualdade pressupõe utilizar a mesma metodologia para todos. A eqüidade, por sua vez, pressupõe metodologia diferente para chegar ao mesmo fim, em nosso caso, o aprendizado escolar. Em nossas escolas públicas, precisamos criar mecanismos que acolham as famílias afundadas na baixa escolaridade. Como? No país, com os mesmos recursos, temos projetos que deram certo. Eles concretizaram esforços em 1) democratizar o ambiente escolar; 2) investir na formação profissional e 3) investir, de verdade, em educação infantil.
Democracia implica em participação e muitos pais não freqüentam a escola. Mas nossa cultura, em vez de pensar nisso como um desafio, logo quer achar o culpado. Se concentrássemos esforços em superar problemas faríamos como a Escola Virgílio Salata, que com a ajuda do Instituto Familiae, criou a Mediação de Conflitos, com resultados excelentes. Ou faríamos como Geraldo Medeiros, que na direção da Escola Jaime Monteiro de Barros, ajudou a promover a participação de tal forma que hoje, mesmo que ele tenha saído, a cultura da participação permanece.
Entender e trabalhar com o diferente é tarefa complexa e este é o trabalho diário dos professores. O melhor dos professores sabe que é preciso formação continuada em serviço para entender informações e emoções que brotam no dia-a-dia. É preciso pensar em estratégias para criar um sistema de formação. A Unicamp é um exemplo de que as universidades públicas têm disponibilidade para a parceria.
Por fim, matemáticos e economistas já quantificaram o retorno que a educação infantil oferece à sociedade. A Universidade de Harvard demonstra que a cada dólar investido em creches e pré-escolas (Emeis) há a economia de 7 dólares em serviços de assistência social. E Ribeirão tem um dos índices de vagas em creche dos mais baixos do Estado.
O que falta? Planejamento, política educacional consistente. Dinheiro há. Enquanto podia investir criteriosamente na formação de professores, a prefeitura vai comprar uniforme e tênis para os estudantes. Enquanto a lei obriga a investir em creches, a prefeitura gasta (contra a lei) no Ensino Médio, que é responsabilidade do Estado. E tirando os bons exemplos citados, que dependeram mais dos diretores do que da prefeitura, não há uma estratégia clara para a participação das famílias nas escolas. Para superar a miséria, não basta dinheiro, é preciso planejamento.
Fonte: http://www.jornalacidade.com.br/geral/ver_news.php?pid=56&nid=32312