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:.adriano.gosuen.nom.br.: : Puta Escola

Puta Escola

Puta Escola

Página pessoal de Adriano Gosuen


 Uma puta escola!
  Adriano Gosuen

"As professoras são umas puta elas dá pra todo mundo".

Na maioria das escolas, seria apenas mais uma frase rabiscada no banheiro. Mas não naquela. Ali, depois do Conselho de Escola estudar e propor um novo Projeto Pedagógico, quase já não havia indisciplina. Ali, a lei da educação, que diz que a educação tem a finalidade de preparar o estudante para a cidadania, era um exercício vivo. Pensando nisso, Cláudia, a diretora, sabia que algo deveria ser feito com relação àquela frase no banheiro feminino.

Então, resolveu usar a regra número 1 das escolas: transformar um problema em oportunidade educativa. Assim, levou o assunto ao Conselho de Escola: um grupo de professores, funcionários, pais e estudantes que decidem o andamento das coisas. E o que poderiam fazer?

A pista também estava na lei: a gestão democrática! O Conselho resolveu levar o assunto para uma Assembléia Escolar. As assembléias são um mecanismo importante para os estudantes resolverem questões de seu dia-a-dia. Nelas, eles aprendem a resolver conflitos de forma pacífica, a negociar, enfim, soluções que deixem todos satisfeitos. Além disso, também ajudam a aprender outro aspecto exigido pela lei da educação: o respeito à liberdade e o apreço à tolerância.

No dia da Assembléia, alvoroçados, os estudantes davam idéias, ouviam os colegas, pensavam soluções! Era trabalhoso. Estavam interessadíssimos, mas as idéias iam e vinham, sem avançar muito. Uma assembléia tem que ser objetiva, para não esgotar as pessoas e, assim, atingir seu propósito. Ali, essa tarefa cabia aos adultos: evitavam opinar sobre a solução, mas cuidavam do tempo de cada um, verificavam se o aluno responsável estava anotando as sugestões, enfim, cuidavam para que o processo desse certo. Os adultos sabiam que o jeito de se chegar a uma decisão era tão importante quanto a decisão em si. Também era preciso conferir se a decisão não seria humilhante ou fora da lei. Não foi.

Estudantes experientes em assembléias, em geral, são mais resolutivos, têm maior facilidade para trabalhar em equipe e propõem soluções mais realistas. Também aprendem a educar melhor suas emoções e a suportar melhor as pressões. E os educadores sabiam que participar das assembléias era oportunidade ideal para que todos, inclusive os adultos, pudessem aprender algo com o ocorrido. E foi assim que os estudantes resolveram que a autora da frase deveria se reportar a um adulto e ninguém mais precisava saber quem era. Também decidiram que ela deveria reparar o estrago, limpando a parede do banheiro. Na Assembléia, a diretora, solidária, de antemão, se dispôs a ajudar.

No último dia do prazo, Aline, estudante da sexta-série, que estava com dificuldades de aprendizagem, foi conversar com sua professora. Era ela. A professora Fabiana, uma das citadas na frase, olhou devagar nos olhos fundos e piscantes da menina que lutava bravamente para manter a coragem de se dizer responsável. Fabiana disse: então você precisa falar com a Cláudia. Veio o silêncio e sentou-se para observá-las. Foi quando Fabiana disse: quer que eu vá junto? A menina meneou um sim com a cabeça. E foram. Caladas. E juntas.

No dia da faxina, entre uma esfregada e outra, a diretora Cláudia perguntou o motivo para a estudante. A menina parou, num demorado instante. Com olhos baixos, disse: não sei. O silêncio voltou a acompanhar a garota. Cláudia tinha hipóteses: talvez a menina tivesse raiva por não conseguir acompanhar as aulas, talvez quisesse ver como era ser uma adolescente rebelde, eram muitas as possibilidades. Mas isso não era o fundamental. Como educadora, Cláudia sabia que não podia julgar o que os alunos são, mas o que fazem. Era nisso que pensava, quando a menina, começando a chorar, disse: sabe, eu tô doente. Cláudia sabia. Para também não chorar, respirou fundo. De fato, a menina estivera doente: 2 dias antes de se admitir como autora da frase, a menina até saíra mais cedo da escola, levada, com dores, pela mãe. Minha barriga dói, disse em lágrimas. Cláudia, então, trouxe o rosto da menina junto ao seu e disse: sabe, eu acho que, a partir de hoje, sua dor vai passar! E passou.

  • Jornal "A Página da Educação", Portugal, Ano 14, Nº 142, Pág. 46, Fevereiro 2005
  • Agência Carta Maior, outubro de 2005

Fonte: http://www.cartamaior.com.br

Fonte: http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=3687

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